Junho 2006 - LOBITOS – NORTE PERUANO
São quilómetros e quilómetros de uma costa, deserta e árida, que oculta das melhores ondas da América Central e do Sul e, quem sabe, até do mundo… O norte peruano tem uma temperatura mais cálida e ondas mais perfeitas e tubulares… É no ‘norte-shore peruano’ que se encontra a paradisíaca área de Lobitos…
Foto: Arquivo Pessoal Magoo/ A onda de Lobitos...
Por Maria João FradeA Thomas Waltrip…O Perú é talvez um dos melhores e mais consistentes sítios para surfar no mundo e também um dos menos visitados. O Perú mostra como as pessoas – e também os surfistas – são actualmente tão dependentes do feedback turístico e comercial de determinado sítio. Talvez pela inacessibilidade de vários picos, por ser um país sub-desenvolvido e não ser fácil desbravar a costa, ou talvez somente por ignorância de quem não faz a mínima ideia, o Perú permanece ainda como um dos melhores sítios do mundo para surfar com muito pouca gente…A costa peruana tem uma extensão enorme repleta de ondas com uma qualidade e consistência incrível. Mas é o ‘norte-shore peruano’ que esconde as mais perfeitas… A maior parte dos surfistas peruanos espera pelo verão, quando começam a entrar os swells de norte do Havaí, que coincide exactamente com a melhor época da zona e de ondas como Lobitos, Cabo Blanco, Los Organos, Mancora. A onda de Cabo Blanco é, talvez, das ondas mais perfeitas que já vi rebentar. Muitos estão anualmente atentos ao swell e quando entra uma crescida preparam-se para viajar 18 horas de carro certos que vão apanhar das melhores ondas da sua vida. Apesar do Verão (Novembro a Março) ser a melhor época do norte, o Inverno (Abril-Outubro) também tem ondas muito boas com as crescidas de swell de Sul. É nesta altura que rebenta uma das melhores ondas do país, Panic Point, vizinha da perfeição tubular de Cabo Blanco, e é também nesta altura que o norte peruano está vazio com inúmeras ondas a quebrarem sozinhas…
É assim que a zona de Talara e Lobitos se transforma num verdadeiro paraíso para qualquer surfista…A zona de Lobitos tem uma enorme variedade de picos de primeira classe. Baterias, El Hueco, Lobitos, El Muelle e Piscinas encontram-se todas num espaço de menos de dois quilómetros e são todas o que chamaríamos esquerdas de sonho. Fácil é também comprender que ainda existem muitas praias e picos por descobrir – não somente nesta zona mas em toda a costa peruana! – o que já implicaria um jipe com tracção e uma busca que teria de coincidir com o timing exacto da onda, ou seja, a altura que se vê determinado sítio pode ser uma altura em que a onda não funcione o que não quer dizer que não rebente muitas vezes perfeita sem nenhum surfista por perto. A diversidade de ondas no norte permite a existência de distintas praias com distintos ciclos de funcionamento, o que torna a zona ainda mais rica. Na verdade, a costa peruana e muito do norte ainda permanece um verdadeiro mistério com inúmeras ondas e picos a quebrarem sozinhos. Conhecer esta costa é trabalho de anos, de mesmo uma vida inteira. Há que saber jogar com as marés, a direcção do swell, o timing da própria onda, a inacessibilidade dos caminhos, a natureza. É um mundo por descobrir…Outra coisa impresionante é que quando as duas jóias do norte – e do Perú -, as ondas de Cabo Blanco e Panic Point, estão a funcionar, toda a elite de surf se concentra aqui o que se traduz numa ausência quase completa de crowd na zona de Lobitos. Cabo e Panic são duas esquerdas vizinhas que funcionam em tempos e swells opostos, e são duas ondas tubulares perfeitas. Cabo Blanco funciona com swell de norte, no verão, de Novembro a Março, e Panic com crescidas de sul, ao longo do Inverno….Lobitos é como uma cidade fantasma… Uma aldeiazinha no meio do nada, com uma enorme e vasta zona petrolífera a ser explorada e um campo militar vizinho. Não se sabe muito da história do local também porque na verdade não há muita informação. Supostamente a onda não era nada de especial até que entrou o último El Niño de 98 e a partir daí tem rebentado cada vez melhor. Teve também a sua época próspera quando era um porto inglês e ainda hoje se podem ver as casas coloniais - muitas abandonadas e vazias, outras reaproveitadas e ocupadas pelos actuais moradores. Depois, na década 60, com o governo do General Velasco Alvarado foi transformada numa zona militar e o seu acesso foi restrito durante vários anos. Só recentemente o potencial surfístico desta área começou a ser minimamente explorado, mas a verdade é que tem tudo para se tornar numa das zonas mais procuradas pelos surfistas que vêm ao Perú.A onda de Piscinas ainda se encontra dentro de uma área militar que requer autorização para surfá-la e, por vezes, de acordo com o humor e decreto do seu chefe ou treinos militares na praia, é possível que não se consiga aceder e surfar a onda. A presença de militares armados e de cara bem séria é uma realidade nesta parte de Lobitos. Mas a qualidade da onda ultrapassa qualquer obstáculo. El Muelle encontra-se mesmo ao lado, uma onda tubular e muito rápida que rebenta ao lado de um pontão – o local de trabalho de vários locais que vivem da pesca e usam o peixe para consumo próprio e venda na cidade de Talara. El Muelle representa hoje um marco especial para mim pois ainda recentemente foi aqui que morreu um recém amigo com quem viajava… Em sua memória, com muito carinho e a lembrança, gostaria de lhe dedicar este artigo… Thomas Waltrip vamos sempre surfar ondas por ti… Que sigas o teu caminho em Paz e Amor… nesta linda e poética estrada da vida… El Hueco é uma onda curta, tubular e intensa que rebenta antes de Lobitos. Nos dias clássicos traduz-se num tubo do princípio ao fim e pode até conectar com Lobitos. O fundo é de rochas e areia com algumas rochas que espreitam. La Frontera é a fronteira propriamente dita que estabelece a conexão entre a onda El Hueco e Lobitos, e Lobitos é uma onda comprida, fundo de areia, para todos os níveis de surfistas, com duas ou três secções tubulares. Baterias é uma onda que, segundo dizem, também pode rebentar com uma qualidade de sonho. Pulpo sempre me conta dos dias em que ele e César Aspillaga entravam em Baterias e corriam as duas secções de onda, remavam um pouco para fora e esperavam que a corrente os levasse até o El Hueco e aí surfavam novamente até ao final de Lobitos!!! Uma coisa sempre a ter em conta é que esta zona tem bastante vento que normalmente entra durante a manhã, o que não implica necessariamente que as ondas não continuem boas.Ficar em Lobitos – por uns dias, semanas ou meses – é uma verdadeira tranquilidade… É acordar de manhã para surfar ondas perfeitas – muitas vezes quase sem ninguém ou somente os locais do costume -, e dividir o teu tempo entre surfar, comer, estar com amigos e ter tempo para simplesmente saborear uma onda que rebenta, uma paisagem de dunas de terra e areia, um pôr-do-sol silencioso ou a areia levada pelo vento… Recentemente, no final do ano passado, houve uns assaltos na Pousada de Lobitos (que actualmente está fora de funcionamento) o que levantou toda uma questão sobre a segurança do local. É necessário compreender que os ladrões eram de Talara, a cidade vizinha – os locais de Lobitos são muito simpáticos -, já foram apanhados e parece-me pouco provável que algo assim volte a acontecer. De qualquer maneira, seja isso motivo para trazer ou distanciar pessoas, a realidade é que as ondas desta área continuam a quebrar para aqueles que as quiserem desbravar…Uma das coisas que mais me fascina e impressiona no norte do Perú é o espírito soul-surfing que se respira. A maior parte dos surfistas são Limenhos de nascimento, pessoas que nasceram e viveram demasiados anos na cidade para optarem finalmente por um modo de vida mais simples e tranquilo. Pessoas que independentemente do que ganham apenas querem poder surfar todos os dias e ter uma vida pacata e tranquila, longe do stress da cidade e da ganância consumista que se respira actualmente no mundo. As pessoas que escolhi entrevistar são pessoas que respiram e reencarnam esse espírito. Cada uma na beleza da sua essência, são pessoas simples mas com uma paixão e amor pelo oceano que eu chamaria “verdadeiramente peruana”! Aqui ficam as suas palavras, para que através do seu olhar e mente possam conhecer um pouco mais não somente desta zona e deste país mas também de como é possível viver uma vida simples simplesmente a fazer o que mais gostas, perto do oceano e da natureza… FACILIDADES:Como chegar – Voar para Lima e daí voar para o norte (Talara é a melhor opção senãoTumbes ou Piura) ou apanhar um autocarro (Cruz del Sur ou Oltursa) de 16 horas até Mancora, ou Talara para aqueles que querem irem directamente para Lobitos.Pousada de Lobitos – Actualmente está fora de funcionamento mas em qualquer momento a situação pode inverter-se e os quartos podem novamente estar disponíveis. Sítio simples, tranquilo e bem em frente da onda de Lobitos…Restaurante Don Lucho – O melhor sítio para comer e também tem dois quartos com quatro camas para quem quiser ficar… O casal que gere o sítio são verdadeiramente simpáticos e, como diriam os peruanos, “recontra buena gente”!Mancora – Outra alternativa é ficar em Mancora e vir surfar a onda e apenas permanecer quando entram as boas crescidas. Há sempre maneira de encontrar pessoas que façam viagens a Lobitos.
FUENTE:
http://www.surftotal.com/page17.asp?ID=157&seccao=viagens